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Relato de parto Tatiana – Nascimento Xico

“Esse treco tá estranho”

Era perto de 17 horas do dia 18 de janeiro quando o céu escureceu no Jardim São Dimas, em São José dos Campos. Um vento soprou forte. Eu e Helena estávamos brincando na Praça Melvin Jones, à espera do Plínio. Ele tinha ido à sede do plano de saúde para transferir nosso plano de empresarial para particular, já que não estava mais na empresa na qual trabalhava e queríamos evitar carência com o meu barrigão. Podíamos fazer isso até fevereiro, mas quisemos garantir. Ainda bem.

Eu e Helena seguramos os cabelos quando a ventania apertou. Fechamos os olhos pra não entrar poeira ou areia que o vento levantava do chão. Segurei também a barriga. Sentia umas dores não muito fortes, mas bem esquisitas. Não pareciam contrações de treino, aquelas que deixam a barriga dura e somem, sem ritmo nem dor. Vinham mais fortes e acompanhadas de uma coliquinha.

Preferi ir com o Plínio pra resolver as burocracias porque três horas antes, em uma consulta domiciliar, perdi um naco do tampão mucoso. Enquanto conversávamos com a Thaís Peloggia e a Natalia Faria, minha barriga enrijecia e eu alertei as obstetrizes: “esse treco tá estranho”. Ainda teríamos alguns encontros, a partir dali quinzenais, já que havíamos completado 35 semanas de gestação e em 15 dias nosso bebê estaria prontinho para vir ao mundo.

Como eu sinalizei algumas contrações, Thaís pediu pra me examinar e, apesar do colo estar mais fino, não havia dilatação. A saída do tampão minutos antes poderia ser sinal dos pródromos. E eu comecei um diálogo com o Xico pra que realmente fossem pródromos. E só.

“Vó atrás do toco”

Pródromo era o nome dado aos soldados que chegavam antes dos exércitos nas guerras. No universo do parto, é o termo usado para as contrações irregulares que anunciam – durante horas ou dias – a chegada de um bebê. “Filho, guenta pelo menos mais uns 12 dias, vai… pra gente conseguir ter o parto que planejou”, eu confesso ter pedido.

Com a “vó atrás do toco” como dizem por aí pra tamanha desconfiança, eu avisei a Thaís que as dores persistiam. A orientação foi de tomar um Buscopan e fazer um exame de urina. Podia ser alguma infecção – bem comum em gestantes. E, então, meio a contragosto – por não curtir medicação – tomei o Buscopan logo que saímos do São Dimas. O destino era o Hospital São Francisco, onde Helena nasceu e onde eu faria o exame.

Calor. Bafo. Nada de chuva. Muita gente. Espera. Às 19 horas fui atendida e o resultado sairia dali duas horas. Pedi pra ser liberada e voltamos pra casa. Dei banho na Helena, dei janta e às 21 horas em ponto estávamos de volta ao hospital: nada. Nem uma alteraçãozinha no exame. E também nada das contrações desaparecerem.

Voltamos pra casa, pus Helena na cama, avisei as obstetrizes e nossa doula que estava tudo bem, apesar dos sinais, e pensei: às 23 horas tomo outro Buscopan e, se a dor continuar, vou pro chuveiro. Lembrava da frase da Debora Regina Magalhães Diniz, nossa doula, no curso que fizemos pra nos preparar pra chegada da Helena. “Vai pro chuveiro. Se passar, é pródromo.” Vai ser. Vai ser, eu torcia.

“Acabou a brincadeira”

Tomei mais uma dose da medicação pra dor e deitei ao lado da minha pituquinha. Coisa de cinco minutos e ela – que dorme a noite toda diretão – desperta: “Já é de manhã, mãe”. Eu explico que não e ela insiste: “É sim, vâmo levantá!” As dores começam a aumentar e eu tento fazer Helena dormir. Nada. Olho no relógio e percebo que o intervalo entre uma contração e outra se torna regular, de 7 em 7 minutos. Meu coração acelera. “Acabou a brincadeira”, penso.

Entro no chuveiro com uma pontinha de esperança de tudo aquilo ser só um susto. As dores aumentam. Eu chamo o Plínio, peço pra ele ligar pra Thaís. À meia-noite ela chega e saio do chuveiro: 3 de dilatação.

– Tati, pelo andar da carruagem, se vocês forem chamar alguém pra ficar com a Helena, é melhor chamar agora.

Gelei. Meu coração acelerou mais. Nada disso estava nos planos. O plano era totalmente outro. Era estarmos todos no nosso ninho, no nosso ambiente, sem atropelo – embora eu já tivesse ouvido que o trabalho de parto do segundo filho poderia ser mais rápido.

Ligo pra minha mãe. No parto da Helena avisei meus pais saindo pra ir pro hospital. Falei pra virem no dia seguinte, pois já era noite. Por termos optado por um parto natural, sem intervenções, não queríamos que nossos pais com a espera, num trabalho de parto que podia durar um tempão. Desta vez era diferente. “Mãe, vem agora, mesmo sendo noite. Vai nascer.”

“Vou te contar uma histolinha. Vai dar tudo céto, mamãe!”

No quarto, na penumbra, Heleninha pegou um livrinho e me disse: “vou te contar uma histolinha. Vai dar tudo céto, mamãe!” E foi ela sair pra ir atrás do Plínio que eu me permiti: chorei. Por minha filha – minha única preocupação num trabalho de parto dentro do esperado – ser tão iluminada. Chorei também de pavor. Os meus planos já não eram o mais importante. Ali, com o meu menino irrompendo antes da hora “normal”, tive medo da morte, da perda, de consequências que eu nem queria pensar. Olhei pra Thaís e falei chorando: “tô com medo”. E, putz, as fotos com a Thaís que a Fabi tirou estão impublicáveis aqui – tô pelada, entregue, conectada – mas essa menina foi a peça fundamental na chegada do nosso segundinho. Ela me olhou firme e doce e falou: “Se ele está vindo é porque ele está pronto, Tati.”

“Cacete, eu não quero entrar nesse carro”

Naquele estender de mão sereno meu coração suspirou, no meio do furacão. Afinal, o trabalho de parto do Xico foi um tsunami. Não deu tempo de chegar alguém pra ficar com a Helena. Não deu tempo da Valéria Gonçalvez – que fotografou nosso casamento, nossa primeira gestação e o parto da Helena – sequer atender o telefone naquela madrugada. Não deu tempo de fazer mala – entre uma contração e outra o Plínio me mostrava as roupinhas que a vó Soninha tinha lavado, mas que não tinha dado tempo de passar. Não deu tempo da Fabiana Beracochea – uma linda que topou fotografar o parto relâmpago – ir pra casa e acompanhar o TP, a ida pro São Francisco. Não deu tempo da doula vir pra nossa casa. Piscina, banheira, meia-luz, aromas, play list. Não deu tempo de seguir o plano, porque em outro plano o plano era outro.

Da dilatação 3 à meia-noite fomos pra 6 à uma da madrugada e, à 1h47, quando olhei pro relógio do carro e pensei: “cacete, eu não quero entrar nesse carro” de tanta dor, eu já estava na partolândia. Cheguei ao São Francisco vomitando de dor. Uns dias depois me peguei pensando se eu tinha conseguido o que desejava pra esse parto: sentir o tempo da natureza. Em uma das consultas do pré-natal coletivo comentei que uma das coisas que eu queria diferente, desta vez, é que depois do nascimento a sensação do relógio andar mais rápido fosse substituída pelo tempo da delicadeza.

Nosso “controle” é pura ilusão.

Mas Xico chegou chegando. Veio pra romper paradigmas. Pra nos desconstruir e reconstruir. Pra nos lembrar que nosso “controle” é pura ilusão. Provar a força da natureza. Parir esse menino foi sentir a simbiose da energia masculina em sua forma mais bruta e a leveza do feminino em uma dança mamífera, no centro de parto.

Das 23 horas às 3h11 do dia 19, quando Xico nasceu, foi tudo muito rápido. Ainda assim eu consegui ver cada cena, cada quadro. Dias depois eu me questionei, me cobrei: “será que eu não desliguei meu neocórtex e racionalizei as coisas?” – porque lembro de “sair do estado” e olhar em volta, procurando o olhar e aos mãozinhas da Helena pra deixá-la tranquila. Nós tínhamos preparado nossa filha pra esse dia, só que ela também foi pega de surpresa. Ela sabia que o irmão ia passar pela minha vagina. Mas a ideia era de que ela pudesse acompanhar a chegada dele assim como ela chegou, passo a passo, lentamente, se “acostumando” com tudo aquilo.

Hoje, dois meses de Xico, consegui parir esse relato. Porque hoje tenho a certeza de que não, não foi racionalizar. A Viviane Manso me disse uma coisa dia desses, num retorno de avaliação de períneo (íntegro, diga-se de passagem): o que você fez foi meditação. E eu, que sempre disse que não conseguia meditar, me toquei que – sim! – não era possível esvaziar minha mente pro Xico chegar. Então, o que fiz foi me conectar com ele, com meu corpo, com a energia vital, com a natureza, com o vulcão a entrar em erupção e também retornar pra mãe da Helena quando fosse importante. Mergulhar nas ondas. Fluir.

Agora, olhando as fotos do parto novamente, sorri ao pensar na beleza do tempo. Na sua relatividade. Como na canção do Gil, como se o vento de um tufão arrancasse meus pés do chão e, ainda assim, me trouxesse a paz.

O Amor que Gera

Meu parto foi um evento feminino. Sexual. Do jeito que eu falo pras mulheres nas oficinas d’O Amor que Gera. E isso só foi possível graças ao Xico e sua impetuosidade. No lugar do pai dele, me apoiando as costas, como fez na chegada da Helena, estava a Débora, nossa doula. Aqui vale uma nota especial: não podia ser outra doula. Não só pelo seu ativismo e senso de justiça. Mas pela conexão que conseguimos fazer. Débora tinha me mandado mensagem pra adiantarmos a visita pré-parto antes de eu avisá-la das contrações. E apesar de não ter dado tempo dela estar conosco em casa desta vez, seu abraço e seu “receba o que o Universo está te trazendo” na chegada à sala de parto ampararam o medo que ainda restava em mim. De repente, eu a ouvi cantar. “Não era eu, foi uma música que escolhi especialmente pro seu parto, que coloquei”. Até agora, pra mim, era ela cantando.

E essa energia do feminino aqueceu aquele quarto feito um grande útero. Plínio, meu amor, meu parceiro de todas as horas, desta vez tinha uma missão maior que amparar meu corpo: amparar nossa Helena. Nossas mãos ali, entrelaçadas, me faziam bailar entre gerações. Senti minhas avós. Senti a presença da minha mãe – que fisicamente ainda estava a caminho. Senti minha irmã. Minhas primas.

Agradeço, agradeço, agradeço, agradeço.

Débora, Thaís, Paula Lenfers – a pediatra que fez a diferença na recepção do nosso guri, Fabi (uma fotógrafa doula à qual sou pura gratidão) e Rosana Fontes – um capítulo à parte pra obstetra que assiste ao parto mais do que assistir o parto, “senta nas mãos” e as usou comigo só pra oferecer o rebozo pra eu segurar – o impensável pra alguns deuses da medicina. Essas mulheres estavam ali fisicamente. Mas Flavia PenidoJana Lacerda, Vivi Manso, Gysele Vilela, Natálias, Margot, Alessandra SilvaPatricia CarvalhoGabriele FávaroMarita, Fernanda Aranda (e seu relato de parto dançante) estiveram comigo também. Por tudo o que fizeram por nós durante a gestação. Por uma frase dita ou escrita – ainda que não diretamente pra mim. Vocês estavam lá e eu agradeço, agradeço, agradeço, agradeço.

Eu estava tão conectada a toda essa energia que não notei que estava no expulsivo. O tempo pareceu parar e eu achei que o parto tinha “empacado”. E comentei com o Plínio que o mais doido de estar com uma equipe alinhada é que as pessoas nem se falam. Elas se comunicam no olhar. Então perguntei: “Ele (Xico) desistiu?” E a Thaís falou: “Imagina!” Insisti: “Mas parece que tá tudo mais devagar…” e ela: “… o expulsivo é assim mesmo, Tati”. Respirei aliviada.

Xico coroou e, pra coroar sua chegada, sua irmã mais velha, com sono, cansada e, percebendo seu limite, pediu pra “ir lá fora”. Talvez por ser mesmo seu limite. Talvez pra dar tempo certinho de receber o nono Pedro, a titi Mari e a vovó Sônia com um gritinho feliz: “o Xico naxeuuuu!”

Tempo, tempo, tempo, tempo…

Enquanto ela gritava lá fora, eu gritava lá dentro e ele nascia. Mais três contrações, agora sem a pequena na sala e eu podendo vocalizar o quanto quisesse, e nosso guerreirinho veio ao mundão. Provou que estava no tempo certo: fez um pequeno desconforto respiratório e, sem precisar de UTI neo ou outras intervenções, mostrou-se pronto pra engatinhar pelo meu corpo, guiado pelo meu cheiro, até sentir seu momento de mamar, na nossa hora de ouro. Sem pressa. No tempo do tempo. Esse senhor do destino, relativo e ambivalente.

Entre tantos significados que achei pro seu nome, filho, adotei o que mais gostei: homem livre. Isso me faz lembrar uma amiga, mãe de um casal, que sempre me disse que o segundo filho era libertador. Você, esse homenzinho livre e senhor do próprio tempo, veio me libertar. Libertou meu corpo, violado tantas vezes, sem nem se dar conta naqueles instantes. Libertou meu espírito. Libertou minha história nessa existência. Então, eu estava limpa, reescrita, reconstruída. E, ali, minha alma bailarina dançou liberta.

Feliz segundo mesversário!
Felizes nós, aprendizes do seu tempo, escolhidos por você pra essa jornada.
Te amamos!
Mamãe, papai e Helena

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Fotografar com o coração, me entregar por inteiro ao um momento que enxergo como poético e mágico.
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Informações do nascimento

Local: Jacareí / SP

Data: 19/01/2018

Profissionais:
Debora Diniz - doulaFabiana Beracochea - fotógrafaPaula Lenfers - pediatraRosana Fontes - obstetraThaís Peloggia Crusino - enfermeira obstetra

Família:
Tatiana - mãe
Plínio - pai
Helena - irmã mais velha