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Relato de parto domiciliar planejado – Doula Mariana Góes

Dois filhos, duas mães

Se tem uma coisa que eu aprendi a duras penas nos últimos 365 dias é que nenhuma mãe é a mesma pra dois filhos. Não tem como ser! Não tem porque ser! Eu cresci tanto sendo Mãe do Martim, por exatos 2 anos e 7 meses antes do Chico chegar, que tentar ser simplesmente a mesma seria uma tolice.

As diferenças pra mim já começaram na gestação: o desespero e as primeiras 24 horas de choque ao ver o positivo, a falta de fotos semanais, o tempo gestacional que não vivia mais na ponta da língua com precisão de dias. O fato é que gestar sendo mãe de um (praticamente ainda) bebê não foi fácil! Faz mercado, cozinha, dá colo, abaixa, levanta, amamenta, brinca, coloca na cadeirinha do carro, tira da cadeirinha do carro…tudo com sono e uma barriga crescendo no meio! Como eu já dava conta daquilo o mundo esperava que eu continuasse, certo? Então a vida seguia, voava. Só depois de uma conversa com minha doula e da releitura do livro Sete Segredos do Parto que percebi meu incômodo por essa falta de conexão com o Francisco, e a solução surgiu em seguida, espontaneamente. Foi Martim que me ajudou quando passou a fazer carinhos e conversar com o irmão, dando bom dia pra ele antes que saíssemos da cama. Aquele se tornou o momento oficial em que eu conseguia olhar pro Chico dentro de mim. Hoje posso dizer que uma das coisas mais lindas na gestação do Francisco foi essa relação do Martim com o irmão, desde muito cedo o enxergando como uma pessoa tão real quanto qualquer outra, só que me habitando, ali, atrás de algumas camadas.

A reta final da gestação

Eu estava com mais de 40 semanas pela DUM, sentia muito cansaço ao tentar dar conta da antiga rotina e pedi pra que minha mãe viesse de São José dos Campos pra me ajudar. Fui cuidada, descansei e finalmente tive os momentos que tinha imaginado pra gestação: aproveitei os dias de sol, caminhei na praia, dei longos mergulhos no mar. Dia 12 de abril foi o último deles, quando conversamos e flutuamos por mais de duas horas no canto da Maranduba. Estar descansada me trouxe também mais presença e pude brincar bastante, me despedindo de alguns momentos de Martim como filho único.

O início da jornada

Dia 14 de abril pela manhã voltamos ao Balaio Caiçara para o encontro da Ciranda Materna, com tema sobre placenta conduzido pela doula amiga Joana. Depois da roda e de muitas chamadas carinhosas pra Chico voltamos pra casa.

Dia 15 de abril eu completaria 41 semanas pela DUM, entraria na fase de realizar outras formas de monitoramento (cardiotocografia, amnioscopia) e tomar algumas decisões sobre conduta expectante ou induções naturais. Eu não queria nem pensar em nada daquilo! Me sentia pronta e queria que Chico chegasse logo. Apesar da boa companhia, a presença da minha mãe durante o trabalho de parto não era uma cena desejada por nenhuma de nós, então ao chegar em casa falei – Mãe, você sabe que não tem a menor chance de eu entrar em trabalho de parto com você aqui, né? Rs.

Com a certeza de que ela voltaria se fosse preciso nos despedimos com um abraço e sem maiores planos. Martim dormindo, eu também fui cochilar e por volta das 17h acordei com uma contração.

Sem saber da novidade, Haru chegou do trabalho falando sobre vender equipamentos em um encontro de pesca no dia seguinte. Como doula vi mulheres tendo pródromos dias, até semanas, antes do parto, então apesar da minha baixa expectativa, deixei claro que a possibilidade do TP engrenar existia. Ele fazendo ligações, começo a marcar o tempo entre as contrações, que não passaram no banho. 18h24, 18h30, 18h40, 18h52, as contrações continuavam de forma muito suave e irregular. Equipe avisada dos pródromos oficialmente, começamos a arrumar a casa pro modo parto e ajustar a logística pra ele ser substituído no evento. Recolhemos roupa da corda, limpamos bagunça da cozinha, arrastamos móveis pra montar a piscina. Tivemos até que sair de casa, ir ao trabalho buscar outro carro, transferir as mil tralhas de pesca e entrega-lo na casa de um amigo (sim, dirigi com as contrações rolando e marcando no celular, o que só não me deixou p* da vida por estar focada no Chico).

O trabalho de parto

Finalmente chegamos em casa, Haru agora inteiro, piscina sendo inflada, eu esquento um prato de comida pra garantir a energia e Martim fala:

– Vai estourar.

– Não filho, a banheira não vai estourar, a gente desliga a bombinha antes.

Xuaaaaaaaaaa, às 21h05, depois de 3h de pródromos minha bolsa estoura como uma cascata na primeira garfada de comida. Só de contar consigo sentir o meu sorriso. Eu tinha evitado qualquer expectativa até aquele momento, afinal eram pródromos, tudo poderia estacionar, mas não foi o caso! Realmente o Francisco estava chegando! Avisei a equipe sobre a bolsa rota, prometi entrar no chuveiro, marcar e enviar 1h de contrações.

Imediatamente as contrações ficaram muito intensas e mais próximas. Acho que ainda ajeitei alguns detalhes, entrei no banho e sem perceber já era 21h30. De novo não queria me precipitar, queria que Haru fizesse a hora completa de marcação, mas como ele perguntou e eu sentia as contrações mais fortes, enviamos o print por volta das 22h. Eu não sabia mas nesse momento as contrações já estavam a cada DOIS MINUTOS. Imagina doula, parteiras e fotógrafa correndo, duas de Ubatuba, uma de São José dos Campos e outra de Taubaté!!!!!!!!

Endi e Marina chegaram em casa 23h30. Nessa pequena janelinha de tempo, entre às 22h e 23h30 mergulhei num mar de sensações incrível. Só 1h30, tempo que voou,  mas que coube MUITA vivência. A cada contração eu me abria, balançava na bola, debaixo do chuveiro, falava baixinho pra mim e pro Chico que estava tudo bem, repetia e repetia ‟é assim mesmo, tá tudo bem”. Não sei se foi a memória corporal, se foi a entrega sem o medo de desconhecer até quando aquilo podia aumentar, mas nesse parto senti cada fase, senti meu corpo trabalhando assim como o do Chico. De olhos fechados eu via o caminho e sentia o corpinho dele, mas ao mesmo tempo em que estava muito presente no nosso processo não me desliguei totalmente do ambiente. Sem romantismos, a dor era cada vez mais CABULOSA (spoiler: parto rápido tem dessas), só consegui ouvir DUAS músicas da minha playlist, o resto foi Martim assistindo Trolls e falando ‟TA NASCENDO MAMÃE? MAMÃE, O QUE FOI? QUE FOI MAMÃE? MAMÃE!”. Fofo, mas meu Deus eu precisava de uma massagem e silêncio! Foi um alivio quando as duas chegaram.

Transição

Endi encontrou Francisco já posicionado bem baixo na ausculta. Marina chegou imediatamente me ajudando a me soltar. Depois de muitas contrações e frente a uma dor tão intensa é difícil não tentar fugir, é difícil seguir boiando no tsunami. Eu sei que conseguiria atravessar a transição de qualquer forma, mas com a presença da minha doularida foi muito melhor! Com poucas palavras e toque suave ela me trouxe de volta pra entrega. Eu lembrava dessa sensação do entrar pela bacia, rachar ao meio, pra mim a parte mais difícil. Martim ficou quase 3 horas nessa então a cada contração eu pedia, implorava ‟desce Chico, vem Chico, desce Chico”. Mais uma vez eu percebia o corpinho dele se movendo, descendo pra mais perto.

A dor era muita, a posição e o chuveiro não ajudavam mais e pedi pra ir pra piscina. Com ajuda levantei da bola, dei alguns passos e MAAAAAAANO que pressão (Chico desceu num tobogã? Rs). Não consegui mais andar. Me joguei nos braços da Marina, que me amparou num abraço que eu nunca vou ser capaz de esquecer.

Expulsivo

Endi colocou a banqueta e ali ficamos, na esquina entre o banheiro e a sala, a 10 passos da piscina, onde eu nunca entrei. Endi  perguntou se eu queria que ele nascesse na banheira, afinal estava no meu plano e o expulsivo tinha claramente começado, mas me lembro de falar ‟só quero que nasça!”.

Por sorte Fabi chegou a tempo e tenho o registro desses poucos minutos que eu tenho vontade de congelar. Minha cena de parto. A sala da minha casa. Marina me amparando e me fazendo relaxar tocando meu rosto, Haru me ofertando água e unindo forças ao me estender a mão, Martim ao  lado, com a mãozinha no ombro do pai, de camarote, e minha parteira atenta a frente, cuidando de nós dois.

Ao contrario do que fiz no nascimento do Martim dessa vez não fiz força, respirava tentando trazer com suavidade o que o corpo já empurrava tanto.

A chegada de Chico

Depois de cerca de 15 minutos nasceu Francisco, às 00h04 do dia 15 de abril de 2018 (e eu brinco que se tivesse levantado da bola 5 minutos antes ele teria nascido dia 14 de abril). Nem no melhor dos meus sonhos imaginei que em 3 horas de trabalho de parto ele já estaria ali, quentinho nas minhas pernas e abraço, com seu cordão curtinho e pulsante, depois de ter sido amparado pelo pai e com a chegada narrada pelos gritos em êxtase  do irmão ‟o Francisco nasceu! O Francisco nasceu!”.

Obs. Muitos dos detalhes de horas e contagens de contrações foram descritos porque li as conversas e marcações nos celulares alheios. Mulheres, uma vez que está claro que o trabalho de parto começou larguem seus celulares!!!!!!!!!! Garantam uma boa equipe, conectem-se ao bebê e boa viagem.

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Fotografar com o coração, me entregar por inteiro ao um momento que enxergo como poético e mágico.
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Informações do nascimento

Local: Caraguatatuba / SP

Profissionais:
Endi Pi Gomes - enfermeira obstetraFabiana Beracochea - fotógrafaGisely Rezende - enfermeira obstetraMarina Pedrosa - doula

Família:
Mariana - mãe
Rodrigo - pai
Martim - irmão