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A importância da fotografia de parto para a mulher – Parte 1

“Eu sorri durante o trabalho de parto?”, ela me perguntou encarando as imagens à sua frente.

“Sim, você sorriu. Você chorou, gritou, quis desistir. Mas, também sorriu, abraçou, foi acolhida e dançou.”, eu respondi tocando levemente seu braço.

Ficamos ali, completamente unidas pelo silêncio, de mãos dadas, contemplando lembranças que traziam doçura e acalanto para as nossas almas.

Ela se lembrava da dor. Se lembrava do choro, da vontade de desistir e até da raiva. Sentiu raiva por querer correr, sair de si mesma e abandonar seus próprios propósitos. Por essas razões sentiu-se constrangida e as lembranças do parto estavam tornando seu puerpério um pouco mais duro que deveria ser. Ela não sabia o que fazer com todas aquelas sensações quando quase todas as pessoas ao seu redor cobravam dela o semblante sereno e satisfeito de quem deu à luz uma criança saudável e forte.

Dei menos tempo que costumo dar para que ela processasse o parto que viveu dentro de si antes de ver as fotografias que retratavam o que aconteceu além do seu sentir. Julguei necessário que fosse feito dessa forma. Marcamos um encontro em sua casa. A conversa aberta e diária entre nós me permitiu saber a hora certa de acolher. Levei flores e uma dúzia de abraços. Minha tarde era dela. Eu era toda dela.

Ela precisou de privacidade, queria ficar só com as imagens do seu próprio corpo, do seu próprio choro e de tudo que viveu naquela noite. Eu fui para a sala com a pequena Catarina nos braços, que dormiu absolutamente prostrada ao som de um refrão que não me saía da cabeça naquela semana.

Quase uma hora depois ela saiu do quarto, pegou sua filha nos braços e voltou para lá. Eu permaneci na sala, observando de longe seu processo e encontrando meu lugar dentro dele.

Ela voltou algum tempo depois. Sozinha, séria – mas serena. Estendeu o notebook em minha direção e pediu sem pedir: “me conta daquele seu jeito”. Silêncio. Sentei com ela no sofá. Passei as fotos devagar enquanto narrava o que acontecia, segundo o que eu vivi e o que vi no parto dela. Ela não lembrava de ter sorrido. Na verdade, alguns momentos foram tão leves que ela gargalhou. Mas, não sabia disso ainda. Ela se viu dançando e sorriu. Sim, dançando! Dançou com seu companheiro – que consentiu o embalo timidamente. Dançou com seu filho. E dançou com ela mesma com os olhos voltados para alma. Não se lembrava de ter tido música durante o parto. Ou ao som de que artista fez seu marido enrubescer.

Queria saber mais. Ver mais. Ela se viu forte, determinada e feliz. Lembrou de momentos que nem estavam documentados, de sussurros trocados com o marido, dos colos que recebeu e de um beijo especial na testa que ajudou a lidar com a exaustão. Ela estava completa, não era só dor. Era amor e frustração. Graça e exaustão. Felicidade e paz. Aquela mulher linda foi crescendo de tal forma na minha frente, que já não me cabia mais narrar a história que pertencia somente a ela. Ela tomou devidamente a narrativa para si e passando as fotos com os dedos me contou sobre seu parto até o final.

Eu recebi um abraço daqueles que dá vontade de guardar pra sempre. Acho que gratidão era o que eu via em seus olhos, o que sentia em seus braços. Me entreguei completamente àquele aconchego e recebi aquela porção enorme de boa coisas que me nutriu a alma. A sensação de me conectar com uma mulher durante seu puerpério e conseguir fazê-la se enxergar profundamente como verdadeiramente é não tem preço e – definitivamente me traz certeza sobre o caminho que escolhi trilhar e a importância do registro fotográfico profissional qualificado e seguro durante o trabalho de parto e parto.

* O nome da bebê foi alterado e as imagens desse post são ilustrativas de outros partos fotografados por mim, a fim de preservar a intimidade desse acontecimento. Caso você tenha feito parte da equipe de assistência a esse parto ou saiba a quem pertence essa linda história, peço a gentileza de não identificar os envolvidos nos comentários. Apesar dessa mulher fenomenal ter aprovado e incentivado esse relato a fim de compartilhar sua experiência com outras gestantes e puérperas, prefiro manter sua privacidade e anonimato até – pelo menos, o final do seu puerpério. Obrigada e beijo grande! 🙂

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Registrar o parto é documentar o nascimento do bebê e o avassalador e potente renascimento da mulher. Fotografar o nascer é um amor antigo meu, companheiro de longa data.
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